Meu livro de contos está pronto. São 12 histórias direta e indiretamente sobre a cidade de São Paulo e seus habitantes, a maioria da periferia.
AMAR
O mar estava escuro.
A noite brilhava sem estrelas.
Longe de lá uma nota de tristeza ecoava um surdo soluço.
O preço era barato: um prato: arroz e feijão: sem mesa.
Os segundos devoravam a suave brisa.
Disparos.
Um miado.
Gritos.
Um carro.
Pneus.
Olhos perdidos no seu.
O coração era o mar.
Sem luar.
Soluçar.
Chorar.
Calar.
Ar.
Matar num barraco não somente seu.
LOUVOR A DEUS – parte I
São tantos anos, meu Senhor, que nem sei se começo pelo fim já nesta trajetória de vida, ou se busco lá atrás o início daquilo que sou. Sou um mistério e preciso me descobrir diante de Você, meu Deus. As palavras de Cristo são tão verdadeiras! Existe tanta razão lógica embutida em suas páginas! Não consigo negar nada na Bíblia daquilo que gostaria. E as coincidências são grandes, demasiadamente grandes que viver todas elas como coincidências é desrespeitar o mínimo de bom senso nas janelas da mente racional.
Quero louvar em todos os sentidos meu Deus! O criador daquilo que existe neste mundo concreto e palpável. O Deus único e verdadeiro. O Deus racional das coisas divinas e lógico das coisas humanas. Sei que sua presença está dentro e fora de mim. Preciso de você, Jesus! Preciso de suas palavras e de sua sabedoria divina. Liberte-me, meu Deus, em o nome de Jesus, desta escratividão. Sua palavra diz que aquele que é pecador é servo do pecado. E eu sou um fraco pecador. E se sou fraco pecador, devo ser forte nas coisas espirituais. E ando perdido. Preciso de orientação, meu Deus! Quero mergulhar nestas águas limpas para enxergar suas profundezas preciosas. Estou ofegante de entendimento. Preciso de proteção. Preciso da verdadeira libertação espiritual. Venha a mim, meu Deus! Pelo sangue de Jesus Cristo! Meu Salvador!
Sua palavra diz que aquele que confessar Jesus Cristo o ungido, o salvador, o filho único de Deus, o envidado aqui na Terra poderá ser chamado filho de Deus! E eu o confesso! Jesus Cristo é meu salvador! Preciso dele! Minha família precisa dele! Os seres humanos precisam dele. Ele quem veio para os seus e os seus não o receberam, e faz com que todos que o recebam sejam feitos filhos de Deus! Eu sou filho de Deus em nome de Jesus Cristo!
Mais do que dizer algo, meu senhor Jesus, tenho muito a ouvir. Ouvir no coração e no espírito o que suas palavras têm a dizer. E quero aprender. Porque a fé vem pelo ouvir, e ouvir a palavra de Deus! A palavra de Deus está na Bíblia. Leio muito a Bíblia, e é ela que vem me dando força, entendimento, esclarecimento, sabedoria. A Bíblia tem me ensinado e me mostrado aquilo do que é feito a vida humana. Todos os seus mistérios e todos os seus segredos. As fraquezas daqueles que estão sem, ou mesmo com Deus! Isto porque muitos homens de Deus têm me decepcionado, mas a perseverança em Suas palavras, senhor Jesus, continuam verdadeiras. Por isso tenho me alimentado delas, através delas, por meio delas. Não há paradoxo! Não há contradição! Há salvação! Perguntava-me muitas vezes porque a fé das pessoas superava o cumprimento das palavras de Deus. E a resposta que tenho agora é que nem eu mesmo sou cumpridor de suas palavras. Elas entram em mim. No entanto, poucas estão em mim. Como sua palavra mesmo diz: aquele que ouve e nada aprende é como a semente que cai no deserto e morre sem gerar fruto; e aquele que ouve sua palavra e a retem e a pratica, este sim gerará muitos frutos como a semente que cai em solo fértil e morre para gerar planta e produzir frutos e sementes aos centos. Quero ser esta semente em solo fértil, meu Deus! Para Sua honra e glória! Hoje sei daquilo que sou feito e para quê estou aqui na terra. Preciso de libertação e rogo a você, meu Deus, em o nome de Jesus Cristo, traga-me purificação, entendimento, amor e compaixão, perdão e sabedoria para ser livre com Jesus Cristo, meu senhor e salvador!
Como vai você
Gosto do Roberto Carlos. Silencioso no olhar e, por isso, quando canta, fecha os olhos ao longo de suas canções. Gosto da simplicidade e da obviedade de suas palavras. “Não sei se gosto mais de mim ou de você.” Não seria bem aquilo que uma mulher gostaria ouvir no planger de uma voz musical.
Há um non-sense dizer aos berros pelos pulmões: “Vem, que a sede de te amar me faz melhor/ Eu quero amanhecer ao seu redor/ Precisa tanto me fazer feliz / Vem que o tempo pode afastar nós dois / Não deixe tanta vida para depois / Eu só preciso saber / Como vai você.” Mas o enigma da beleza do Rei é isso: o silêncio das palavras faladas, o silêncio do olhar nas palavras cantadas. E é bonito ouvir de sua voz: “Como vai você/ Eu preciso saber da sua vida/Peça a alguém pra me contar sobre seu dia/ Anoiteceu e eu preciso só saber/ Como vai você?/ Que já modificou a minha vida/ Razão de minha paz já esquecida.”
Gosto desta simplicidade tão sincera. Gosto da inocência. Gosto da humildade. Gosto de saber que gosto da inocência e da humildade, embora de humilde tenha eu apenas minha relação com os humildes de espírito e inocentes de coração.
Hei, como vai você?
Escrever e chorar
Por que as pessoas choram? Choram porque existe um processo químico unido a um processo biológico dentro de um processo social que desencadeiam juntos um processo descritível e visível. É engraçado o choro. Diz tudo do modo como as pessoas entendem. O choro é para si e para os outros. Arrancou mais lágrimas das pessoas um pássaro encoberto de óleo na Guerra do Golfo de 1991 do que o sofrimento de Cristo na Cruz no Calvário. Por que você chora, hein? Diga lá. Social, biológico, químico, qual o motivo? Chore e examine as lágrimas. Converse com elas. Pergunte às pessoas o sentido das suas lágrimas. Pesquise. Analise friamente. Paradoxal. Parte do mundo hoje chora lágrimas completamente racionais.
Ajuste e reajuste
Um amigo comentou que parece difícil para ele se ajustar neste mundo, enquadrar-se, modelar-se, ou mesmo sujeitar-se, ser alguém que o mundo chama de igual, ou semelhante, ou parecido. Este amigo é um artista. Artista mais de quem sente a vida mais do que consome o que a sociedade tem. Nem mesmo o protesto tem jeito. Nem artista rebelde há. E este amigo é uma síntese de consumidor desajustado nas sensações artísticas. Sabe do que precisa sem querer se satisfazer, mas gostaria de se satisfazer sem saber do que precisa. Disse a ele que melhor seria se vivesse numa Europa, nos EUA, até mesmo em uma China, e não me surpreenderia se numa África – tão carente de sensações. Nosso país é um país quase que de incompetente. Poderia até dizer ingênuo. Brilhantes mentes deixam este país para se ajustar socialmente em outros lugares. Quanto potencial! Por isso gosto de Racionais MC. “Aqui na área acontece muito disso. Inteligência e personalidade, mofando atrás da porra de uma grade.” Ou dentro de um apartamento, ou dentro de um sistema praticamente falido.
Aquele ali presente
Olhar no infinito. Gosto desta expresão. Olhar infinito no passado. Depois que li estas suas palavras, Renata, a vontade era levar o olhar para o infinito. Por alguns instantes olhei lá para fora. Através da janela. Recuei a visão e me vi de barba. Inocente e sem revolução na cabeça. Um jovem temeroso pela falta de tudo na vida. Falta de dinheiro; falta de família; falta de amigos com quem pudesse compartilhas as mesmas faltas. Das poucas coisas que não me faltavam eram as palavras que preenchiam a imaginação. E temia. Temia iludir as pessoas da forma como eu me iludia com as palavras. Perigava elas sofrerem. E o sofrimento era a falta de si próprio. Temia levar o sofrimento porque eu sentia falta de tudo na vida e me escondia de quase tudo. Havia quem procurava quem não queria ser achado. Mas não me achavam. Porque me escondia. Era um mistério que nem sei mesmo como fazia. Temia. Temia muito. De tanto temer fui indo como quem não pede esmola, mas como quem pede licença para viver. Fui mal interpretado também por isso. Por fim, minha amiga diz muita verdade. Às vezes tenho vontade de falar algumas verdades. Mas ainda temo as palavras. Todos conhecem a si mesmo. Sei o que representou a barba. Como sei hoje o que representa a gravata e o paletó. Publicarei ainda um livro de contos e poderei até ganhar dinheiro com isso. Encontrarei ainda esta minha amiga para conversar e ela enxergará talvez os primeiros fios brancos de uma barba cuidadosamente aparada, e irá rir de tudo com algumas notas de tristeza para temperar o insosso daquilo que ficou… Olhar no infinito novamente… Obrigado, amiga. Deixe o silêncio dizer as coisas por si mesmo.
renata gilsogamo
Ele usava barba quando nenhum jovem da idade dele. Ele arriscava a Hering branca quando os mocinhos variavam a cor da pólo. E talvez ele até não fizesse questão do banho diário… Enquanto os outros usavam gel no topete e nas espinhas para secar. E o discurso dele de outrora, uns 10 ou 12 anos atrás, era aquele abominável pelos seus iguais, salvo uma ou outra adolescente que caia de amores pela sua lábia erudita com um “tchan” de Che Guevara.
É porque hoje, quando saio por aí, vejo tantos desses moços que cultuam a bela barba desaparada, os cabelos despenteados, as camisetas brancas básicas, o discurso anti neo liberal, a estética cinematográfica apurada, o ar mal-lavado, ouvidos bem treinados, freqüentadores de sebo e sessão das 14hs no Centro Cultural de filme boliviano, enfim. Olho para eles e vejo aquele meu amigo que era assim quando ninguém o era.
E olho para esse meu amigo – que na verdade faz tempo que não vejo – e hoje não usa barba, nem faz tantos discursos socialistas, e toma banho todos os dias. Provavelmente ele não tenha abandonado a poesia nem a literatura, mas, na mesma proporção, provável que tenha dado espaço a outros discursos no lugar daqueles que não visavam colocar comida na mesa para uma família de quatro pessoas.
Tem horas eu sinto que tanto ele, quanto eu, temos saudades daqueles tempos e, por vezes (várias vezes) queremos agir como se ainda estivéssemos naqueles dias… e acabamos sendo tão ridículos e felizes pelo sentimento da saudade inevitável.
Tem anos que não o vejo, e acabei perdendo o contato e a paciência com ele… pode ter sido pela perda da barba de Sansão, que tanto me encantava. Ao mesmo tempo em que hoje tenho asco desses meninos pseudo marxistas que desfilam sua barbas mal cuidadas num protesto banhado de influência de fontes duvidosas, certamente vinda do lado de lá.
Das coisas que ficaram no olhar
Olhar é um dos mais fascinantes mistérios. Olhamos com as mãos aquilo que não basta enxergar. E continuamos olhando quando o próprio olhar é enganador das ilusões que o coração sente. Machado de Assis devorava a natureza humana com o seu olhar dissimulado. Fingia não ver com seus olhos de ressaca epiléticos. Mas ele viu e registrou muita coisa. Eu gosto de olhar. Aliás, o homem em geral gosta de olhar. É uma fraqueza de quem precisa se iludir com o mundo para superar seus limites. Com o olhar muitas vezes surgem as reflexões e outras as neuroses. Gosto de olhar para refletir e descobrir que sem Deus nada sou porque “a fé é a certeza nas coisas que não se vêem”. Antes me iludia com aquilo que eu olhava; hoje me encontro naquilo que não vejo, mas sei que está lá… Esperando todos nós. Quem tem olhos para ler olhe o que está à sua volta e vislumbre a magia da perfeição. O caos e o acaso são contra o olhar e a certeza. Olhe atentamente. Para o infinito… Depois volte. Sem pressa. Sem certeza. Porque há quem esteja olhando para você. Indefinidamente…